quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Paradoxos da candidatura Lula: conciliação e radicalização

Aldo Fornazieri

O impasse político-jurídico que faz de Lula um candidato e não-candidato, só será equacionado pela correlação de forças que o desdobramento da atual crise e novos eventos produzirem. Depois da indignação inicial pela condenação do ex-presidente, as forças políticas progressistas voltaram ao seu estado de letargia. Delegaram a Lula e à sua defesa a tarefa de tentar reverter a condenação. Lula, viajando pelo país e, sua defesa, trabalhando nos tribunais. A decisão do Congresso do PT de defender Diretas Já, mesma bandeira assumida pelos demais partidos de esquerda e por movimentos sociais, não se transformou em movimento de ruas. O "Fora Temer", mesmo que o presidente ilegítimo tenha apenas 5% de apoio, está circunscrito ao Congresso e às redes sociais.


Há um risco enorme em tudo isso, pois os tribunais e os juízes não estão julgando a partir da Constituição e das leis, mas a partir de suas vontades interpretativas. Com a opinião pública apática, desanimada e desmobilizada, a possibilidade da inviabilização da candidatura Lula pode se constituir em tendência dominante.


Mas, admita-se, para efeito de projeção de cenários, que a candidatura Lula possa existir legalmente. Se esta legalidade existir, a imposição das circunstâncias fará de Lula o candidato e adiará a pretensão de renovar o PT com um candidato que expresse uma nova página na história do partido. Estabelecer-se-á, então, um paradoxo muito singular, que é o paradoxo da conciliação e da radicalização.



Pelo que se dispõe de biografias do líder sindical e de estudos acerca do que foi o governo Lula em seus oito anos, não há como negar que, tanto na sua atuação sindical quanto na presidência da República, ele imprimiu a marca da conciliação em suas ações. Dizer isso, não significa emitir um juízo de valor e nem dizer que Lula não tinha um lado. É evidente que tinha e tem um lado. Entendeu, no entanto, que a melhor forma para alcançar determinados objetivos para aqueles que pretendeu representar, a política de conciliação era o caminho mais factível. Claro que se podem emitir juízos de valor sobre essas escolhas, mas não é o objetivo aqui.



Convém lembrar que Lula se tornou presidente nas eleições de 2000 a partir de dois movimentos táticos conciliadores: a Carta ao Povo Brasileiro e a marca "Lulinha Paz e Amor", que apagaram qualquer sombra de radicalismo que pudesse se projetar sobre ele. A síntese da política governamental do petista foi o jogo do "ganha-ganha", como bem demonstraram os estudos de André Singer. A política de conciliação, o amplo leque de apoio que construiu em sua base congressual e os resultados alcançados pelas políticas econômica, salarial e social se traduziram em anos de significativa paz social e de amortecimento dos conflitos sociais e trabalhistas.



Olhadas as coisas por este ângulo de mirada, as elites deveria agradecer aos céus pela existência de um líder como Lula, expressão de um enorme lastro popular, de uma inegável força carismática e, ao mesmo tempo, vocacionado para a construção de um caminho de concórdia, de entendimento e de paz. Assim, Lula não é apenas um conciliador, mas o grande mediador nacional, o pacificador, o líder quase que imprescindível para reunificar o país num memento de tensões, de radicalizações e de descaminhos. Se as elites pensassem racionalmente, deveriam fazer apelos, movimentos de resgate, para tornar Lula candidato.



A potência da radicalização



Quiseram, no entanto, os caprichos da Deusa Fortuna e os desatinos dos humanos turbar o jogo político e transformar o símbolo da conciliação em símbolo da radicalização. Setores das elites não se cansam de estigmatizar, demonizar e perseguir este símbolo, que é o Lula. Claro, se a candidatura Lula se confirmar, ela terá que proclamar a paz e a concórdia entre os brasileiros se pretender ser exitosa. Mas ocorre que a candidatura Lula não pertencerá nem a Lula e nem ao PT. Se do ponto de vista da campanha oficial ela terá um rosto afável, do ponto de vista das ruas e do debate social, ela deverá assumir a dimensão de uma batalha campal.



Os setores conservadores e de direita, em suas diferentes expressões, buscarão meios de tentar interditar a todo custo uma vitória eleitoral de Lula. Ciro Gomes afirmou que "Lula racha o país em bases odientas, rancorosas e violentas". É verdade, mas não é Lula e a sua vontade que produziram tal racha e sim a dinâmica que os golpistas imprimiram ao país e à opinião pública que levou a este cenário de confrontação.



A possível candidatura Lula provocará uma polarização intensa e o eleitorado conservador terá que definir o seu antípoda, o anti-Lula. Dória e Bolsonaro se pré-definiram e se investiram com os anti-Lula. Seja quem for o anti-Lula - um desses dois ou um terceiro - terá uma tropa de choque raivosa que precisará ser confrontada pelas forças políticas e sociais que se constituírem em apoio ao petista. A campanha polarizada tenderá a estreitar tanto o espaço à esquerda de Lula, quanto o de centro-esquerda.



A pergunta que cabe fazer é a seguinte: a polarização será positiva ou negativa para o Brasil? A resposta deve ser a de que a polarização será positiva. A polarização desnudará a grande mentira, a grande farsa da política brasileira: a farsa da sociedade pacífica, harmoniosa; a farsa que encobre as tragédias do país, as profundas desigualdades, as injustiças e o assalto que as elites promovem aos recursos públicos.



O Brasil precisa encontrar a sua verdade e a verdade do Brasil está no conflito e na sua explicitação. A polarização exigirá que os políticos se posicionem, sem truques de marketing, acerca de qual país querem e como pretendem destinar os recursos públicos, provindos, em sua maioria, do suor do povo trabalhador. Os políticos terão que dizer se querem que continue a incultura do povo, a precariedade da educação e saúde, a falta de empregos e de direitos, a insegurança e a angústia das favelas ou se querem um país justo, igual, desenvolvido e um povo culto e educado. Os políticos terão que dizer se querem que bebês continuem sendo baleados no ventre das mães, se querem os 60 mil mortos por ano pela violência, se querem a continuidade das espantosas estatísticas das tragédias no trânsito ou se se tornarão competentes, responsáveis e comprometidos para superar tudo isto.



A polarização terá que exigir que os políticos se definam, escolham lados, assumam compromissos. O Brasil não pode seguir caminhando sob a égide da farsa, da mentira e da hipocrisia - marcas degradantes de sua história. O desânimo do povo terá que se transformar em cobrança e em exigência de compromissos e responsabilidades.



O povo terá que dizer que não aceita que deputados e senadores o traiam depois de eleitos. Terá que dizer aos governadores e ao presidente que quer eficiência, transparência e honestidade, pois uma dessas variáveis não existe sem as outras. Se a candidatura Lula se viabilizar, terá que ser popularizada, desprivatizada do controle do PT e dos marqueteiros. Terá que pertencer ao povo, as suas demandas, às suas angústias e as suas esperanças. Só assim poderá ter um sentido histórico positivo e transcendente em relação a este momento degradante da história do país.



Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).


Jornal GGN


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